Pense um pouco


De uns tempos pra cá venho vendo que há muitas pessoas que deveriam se matricular na escola da vida. É preciso muito mais que o abecê e que lições de etiqueta para alguém passar pela vida de uma forma estonteante. Não adianta negar, todos queremos uma vida estonteante, cheia de conquistas, objetivos e sonhos alcançados, é claro que queremos, mas pra isso precisamos aprender muita coisa antes. A escola é apenas um capitulo. Passamos pelo jardim de infância, aprendemos a colorir sem ultrapassar a linha, passamos pela terceira, quarta e quinta série, aprendemos a somar e subtrair, passamos pela sétima e oitava série, vem a divisão, a multiplicação e consequentemente vem aquela primeira paixonite, você conhece um garoto, fica “apaixonada” por ele por uns longos anos até que chega o ensino médio e automaticamente pensamos “ah, até que enfim! Logo logo estarei fora desse lugar chato”, mal sabe você que não é bem assim, aquele garoto que você gostava um ano atrás começa a conversar contigo até que a menina que você chamava de amiga fica com ele em uma festa do colégio que você não foi. Você chora, se lamenta, fica com raiva e praticamente reza para que acabe. Depois os três anos do ensino médio passam, você vai pra faculdade e percebe que tudo o que você estudou sobre ciclo filogenético em Biologia e funções logarítmicas em Matemática foi uma perda de tempo.
Cinco anos se passam, você acaba a faculdade, se forma e arruma um emprego. Seu primeiro emprego. Compra um apartamento barato a alguns quarteirões do seu escritório e ganha um carro de presente dos seu pais. Começa a passar as noites de sexta-feira sempre na mesma cafeteria no centro da cidade fazendo aquelas planilhas que o seu chefe pediu que entregasse na segunda e, em uma dessas noites, acaba conhecendo um cara, não muito alto, moreno, olhos escuros, uma tatuagem de águia no ombro, vive de touca e que está terminando a faculdade de arquitetura. Começam a namorar. Alguns meses depois, numa noite fria, vocês estão caminhando em direção a guarita do seu prédio, ele te beija, hesita ao ir embora e quando vira as costas você o convida pra subir, vocês entram no apartamento aos beijos, vão para dentro do seu cômodo e no dia seguinte a roupa de ambos amanhece espalhada do outro lado do quarto. Você abre os olhos e percebe que está sozinha na cama, escuta alguns barulho na cozinha, veste uma camisa, uma calcinha e vai ver o que está acontecendo, encontra ele de bermuda na frente do fogão tentando preparar ovos fritos e torradas. Mais meses se passam e entre trocas de caricias, oras no apartamento dele oras no seu, vocês decidem finalmente juntar os pontos, juntar os lares, juntar as camas. Ele te convence a vender o seu apê e te leva até a sua nova casa, num excelente bairro da cidade.
Alguns dias depois, você estão ocupados pintando o novo quarto e após uma leve guerra de tinta, ele tira uma caixinha pequena do bolso, você fica boquiaberta, ele coloca o anel no seu dedo anelar, te faz aquela bendita pergunta e você simplesmente responde “sim”. Semanas se passam até que a casa esteja completamente do jeito que você sempre sonhou, você está parada de pé na cozinha, fita a sala e pensa em como tudo está perfeito. Um carro estaciona na garagem e você escuta seu noivo entrar pela porta, ele vem por trás e te beija na nuca, coloca um papel sobre a bancada e solta a notícia tão esperada, a data do casamento foi marcada. Você liga pra sua mãe, pra sua irmã, praquela colega que você não vê a alguns anos, pra suas companheiras do serviço, liga pra sua avó, pro seu chefe, pra sua prima e pra sua tia, liga pra todo mundo a fim de que todos saibam que o seu grande dia foi marcado. Depois de muita correria, telefonemas pra lá e pra cá e noites calorosas dentro do quarto com a porta aberta, o belo dia chega. Você está nervosa, sua mão soa enquanto a maquiadora termina e a cabelereira puxa o seu cabelo de lado para prender com a presilha. Você levanta, se encara vestida de branco no espelho e bate aquele orgulho, orgulho de tudo o que você foi e de tudo o que você ainda será.
Dá a hora, você chega na igreja, está de pé em frente a porta, respira fundo e de repente escuta a marcha nupcial. As portas se abrem e você vê todas aquelas pessoas, alguns que você não via a meses, outros que não te viam a anos, você olha para frente, sorri, pensa “minha mãe conseguiu” e sente uma lágrima de felicidade escorrer pelo cantinho do olho. Depois de todo o discurso do padre, finalmente chega a parte em que você diz e recebe um “aceito”. Anos se passam e já se pode ouvir o fruto do amor que sempre exalava no quarto correndo pela sala. Eles crescem, você envelhece. Se der sorte, envelhecer não será um problema porque você não vai fazer isso sozinha. Aquele rapaz que te encontrou na cafeteira numa noite de sexta-feira, que queimou o dedo preparando ovos e torradas, que pintou a ponta do seu nariz com tinta de parede branca e que te surpreendeu inúmeras vezes vai estar ao seu lado. Seus filhos crescem e outro ciclo vai se dar início com eles. Sabe, é essa a escola da vida. Como aquele velho ditado: vivendo e aprendendo.
Entenda que sua vida pode ter muitos altos e baixos, mas é tudo planejado por Alguém maior que você possa imaginar. Então relaxa, se está ruim agora, uma hora tudo isso tende a melhorar e no final você vai olhar para trás e irá sorri com orgulho do que você foi, do que você passou adiante e das coisas que você conquistou. Atrevo-me a dizer que toda história, por mais terrível que seja, pode sim ter um final feliz.

Carol Cardoso, real-desapego.

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