Era sempre assim, de tempos em tempos elas se mudavam.
Can nunca entendeu exatamente por que a mãe não queria ficar muito tempo numa cidade e do nada resolvia mudar de lugar e de vida. Ela nem tentava mais fazer amizades nos novos colégios, sabia que em breve nunca mais os veria e apesar de ser frustrante, para ela era melhor assim, não ia precisar agradar ou desagradar ninguém.
Claro que as vezes ela pensava em ser como as garotas dos colégios que ela já havia passado, com namorados, amigos e toda aquela mania de rainha. Mas isso era só quando o desespero batia e ela não tinha com quem conversar, foi aí que surgiu as corridas, sua forma de extravasar, relação e manter a forma, todas as cidades por onde ia, procurava um lugar que ela se sentisse bem e segura e então começava a correr, a aprender os atalhos.
O novo colégio era como todos os outros, normais e grandes com muitas pessoas entrando e conversando.
Can e Cat tinham apenas dois anos de diferença, mas Can duvidava fossem filhas do mesmo pai, não se pareciam com a mãe e muito menos se passariam por irmãs se elas não contassem. Elas chegaram e começaram a tentativa de saber para que lado teriam que ir para pegar seus horários.
Estavam as duas conversando, tentando chegar a um acordo para que lado seguir. Era o primeiro ano que as duas estudariam no mesmo colégio e talvez tivessem algum horário juntas. Cat, teimosa e brincalhona, não queria deixar a irmã escolher. Can seguia andando e olhando para irmã quando esbarrou em alguém.
- Tô começando a achar que essa é sua maneira de dizer "Oi". - Disse ele rindo.
Can olhou assustada já se preparando para pedir desculpas, até ela já começava a achar que isso de esbarrar nas pessoas estava saindo do controle. Quando reconheceu a voz e a risada divertida, tudo que fez foi ficar sem graça, mesmo assim o olhou e fez um meneio de cabeça para se desculpar.
Seguiu seu caminho sem ao menos falar nada, Markus ficou olhando ela ir embora e imaginando o que aquela garota tinha para ser daquela maneira, sempre escapando entre os dedos dele.
- Quem era aquele? - Perguntou Cat.
- Não sei, um cara que esbarrei hoje de manhã na corrida.
- Ele é bonito.
- Esquece ele, quando menos esperar estamos indo embora de novo.
- Por isso que é bom. Não precisa ficar apaixonadinha, nem nada disso.
- Cat, esquece. A gente tem que se preocupar com as aulas.
- Tá. - responde Cat emburrada.
Depois de rodar quase todos os prédios, elas encontram a secretária, pegam seus horários e tentam se adaptar aos locais. É complicado ser novata, os professores querem conhecê-la, saber como tá o aprendizado delas e sempre perguntam coisas direcionando para elas.
E pra infelicidade das duas, só pegaram educação física juntas, vão ter que suportar todo o resto sozinhas. Apresentações em cada sala, e sempre as mesmas perguntas "Por que se mudaram?" "De onde vieram?" "O que estão achando da cidade nova?" "Tem parentes aqui?" Isso a irritava, por que essa demonstração de interesse se na aula seguinte agiam como se não a conhecessem? Can tentava ao máximo sorrir e responder tudo que queriam saber, mesmo que a pergunta já tenha sido feita umas quatrocentas vezes?!
- Conseguiu sobreviver? - Disse Can brincando para irmã.
- Tá brincando? Eu me senti uma celebridade. - Riu Cat.
Elas voltaram para casa quando já eram quase 16h, a caminhada de casa ao colégio não era pequena, mas as duas preferiam assim. Para Can era uma liberdade e Cat uma forma de fazer exercício sem ter que as duas chegassem.
- Tudo bem, mãe? - Perguntou Cat.
- Sim, e vocês? Como foi a aula?
- Normal, chata, tediosa, como sempre. - Riu Can colocando a bolsa no sofá. Caminhou até a cozinha, bebeu água e voltou. - Por que?
- Nada, nada. É só que essa é nossa cidade natal. - Soltou a mãe.
- Como é que é? E você deixa pra contar que voltamos para onde eu nasci agora? - Reclamou Can.
- Eu não sabia como contar e nem se vocês iam querer vir aqui, talvez tenha sido uma má ideia.
- Tá brincando? O nosso pai pode ser qualquer um dessa cidade. - Disse Cat.
- Por que? - Questionou Can.
- Por que o que? - Devolveu a mãe.
- Por que agora? Por que você quis voltar? Por que nunca deixou que a gente soubesse de onde eramos para do nada vir pra cá. O que tem nessa cidade que lhe manteve longe por tantos anos.
A mãe das meninas só as encarou, elas mereciam respostas, mas não sabia dá-las. Como contar que ela foi expulsa pelo próprio pai e que o pai delas quase a matou. Além disso, isso fazia tanto tempo, quase ninguém lembrava do que aconteceu na cidade e talvez assim fosse melhor, mas sabia que precisava preparar Can, ela seria a primeira e cuidaria do resto, cuidaria da irmã quando fosse o momento.
Can notou que sua mãe não ia responder nada. - Não quer falar, não fale. - E saiu, subiu para o quarto trocou de roupa, colocou um tênis de corrida e saiu.
Ela não sabia se sentia raiva ou felicidade, finalmente poderia ter algumas respostas, mas duvidava que fosse gostar. Mas já era um começo, sua mãe sempre foi assim, emotiva e reservada, mantinha o passado no passado e nunca esclarecia nada sobre a vida delas quando eram pequenas. Era a primeira vez que sabia algo sobre a mãe, sabia que tinha nascido ali, que seu pai talvez fosse dali e se desse sorte podia já ter esbarrado com ele e nem percebeu.
Será que era por isso que se sentia bem na floresta? Só fazia duas semanas que tinham se mudado, e corria ali todos os dias. Mas era como se conhecesse aquela floresta a anos, será que era por isso? Por ter suas raízes ali.
Não lembrava por quanto tempo correu, mas só voltou para casa quando já estava bem tarde, não queria vê a mãe tão cedo. Não estava pronta para o monte de perguntas que ela tinha que continuariam sem resposta.
Subiu sem fazer barulho, tirou a roupa e foi para o banho, ficou um tempo ali, tentando relaxar os músculos depois de tanto tempo correndo, saiu, vestiu-se para dormi e deitou. Nem ao menos reviu a matéria das aulas, não tinha cabeça.
Mas mesmo exausta não conseguia dormi, ficava olhando para o teto com a cabeça fervilhando de perguntas, de duvidas, aquela noite seria longa pelo visto, sua mente não ia lhe dá trégua.
Continua?




