Do passado


Ela corria desesperadamente, não sabia ao certo porque, mas não queria que ele se aproximasse. Será que era ele mesmo?
Já era acostumada à corridas, corria todos os dias, mas aquele desespero a fazia correr como louca, tropeçando nos próprios pés, caindo pelo caminho, sujando-se e levantando o mais rápido que podia, aquele sentimento crescia dentro dela. Não o deixe chegar perto, não deixe.
Que horas eram aquelas? Três? Quatro? O que sua mãe tinha dito sobre correr aquela hora mesmo? Por que raios não a tinha escultado? Pelo menos uma vez, por que?
Mas Deus, por favor, que ela pudesse sair dali viva. Parou por um minuto para respirar, limpou um pouco da terra no seu rosto, olhou para trás um segundo e viu a luz da lanterna dele. Voltou a correr.
Se pelo menos conseguisse lembrar para que lado estava correndo. Talvez assim lembrasse como sair daquela floresta que sempre lhe pareceu segura e agora tinha a certeza de que se parasse de correr, seria morta.
Correu desesperada para o lado que achava ser a saida, passou por plantas e se chocou com tudo em cima de um garoto.
- Meu Deus, o que é isso? - Ele gritou.
Ela o olhou e pulou para longe dele, olhou uma vez para trás e acreditando está segura já que havia voltada para a calçada que separava a floresta da cidade. - Me desculpe, eu... - Não achou nada que pudesse dizer.
- Descobriu que se jogar nas pessoas parecendo uma louca pode ser atraente? - Riu ele, claramente se divertindo por ela está acanhada. - Markus. - Estendendo a mão.
- Can. - Disse ela ignorando a mão dele.
Markus abaixou o braço. - Por que tá assim?
Can se olhou percebendo que estava imunda, mas não se importou, o que ele era além de um estranho? Por que ele se importava com o que ela tinha para esta daquele jeito.
- Como eu disse, desculpa. - Virou-se e voltou a correr, dessa vez pausadamente e em direção a sua casa.
Chegando a casa, entrou pelos fundos, sua mãe enlouqueceria se visse o estado que estava suas roupas. Tirou-a na cozinha, caminhou até a lavanderia e as jogou na pia, as lavaria depois que se lavasse, foi até seu quarto sem fazer nenhum barulho.
Foi ao seu banheiro, tirou a calcinha e o sutiã e entrou debaixo da água morta do chuveiro.
- Onde você estava?
Ela gritou e virou se vez. - Mãe, assim você vai me matar.
- Onde você estava? - Continuou a senhora.
- Fui correr, eu precisava.
- Aproveitou para saber o gosto da terra? Vi suas roupas. Precisa tomar mais cuidado, Can.
- Mãe, eu sei, só me deixe tomar um banho. Depois conversamos mais.
- Can... - Ela tentou argumentar.
- Mãe, tudo bem. Eu sei, agora deixa pelo menos eu terminar e vestir uma roupa, ai você pode começar a reclamar.
A mãe saíra sem dizer mais nada. Ela sabia que tinha passado dos limites, mas não dava para aguentar, todos os dias a mesma coisa, era só elas e a irmã mais nova, por que tinha que ser tão complicado? Sua mãe só tinha a elas, e elas a mãe, por que não ter uma convivência sem brigas o tempo todo? Sem reclamar.
Terminou o banho se questionando até quando seria assim, quando sua mãe perceberia que a vida delas precisava melhorar.
Saiu do quarto já arrumada para a aula, era seu primeiro dia de aula na nova escola, estava ali a duas semanas e seria a primeira vez que veria pessoas da sua idade, todas juntas.
- Mãe...
Achou-a chorando na sala. Cabeça baixa.
- Mãe, o que houve?
- Não quero que pense que só reclamo o tempo todo. - Disse ela levantando o rosto e limpando as lágrimas.
- Só sinto que se eu não me preocupar, posso perdê-las também.
- Mãe, nós não vamos a lugar nenhum...
- Só a aula. - Disse a irmã mais nova, sorrindo.
- Tomem cuidado.
- Com quem, mãe? As professoras? - Brincou Cat.
Can levantou-se, pegou o cereal e serviu ela e a irmã. - Que horas você vai ao trabalho?
- Só a noite. Hoje vou ajudar a arrumar uns documentos e o Dr. quer que eu esteja disposta, pois são muitos anos que não arrumam os arquivos. E na semana passada não consegui encontrar alguns documentos de um cliente antigo.
- Tudo bem. Nos vemos às 15h. - Disse ela terminando sua refeição. - Vamos Cat?
- Uhum.
As duas se levantaram, pegaram seus materiais, deram cada uma um beijo na mãe e saíram para o primeiro dia de aula.



Continua?