Cartas pra Você #11


Essa é uma sessão do blog e ela está inteiramente voltada a cartas em livros e filmes, que como expliquei anteriormente sou apaixonada por recebê-las.
E por mais que algumas pessoas considerem-na ultrapassada, eu prefiro receber uma carta à um e-mail, dá aquela emoção em abri-la, em lê-la.
Essa semana a carta que eu escolhi é bem grandinha, mas eu particularmente a adoro, tanto no filme como no livro, ela é uma carta mais explicativa sobre atitudes do que necessariamente romântica, mas mesmo assim tem significado para toda a história. Trata-se de uma carta do livro "Orgulho e Preconceito" e apesar de ainda não ter me deliciado com toda a leitura do livro, apenas da carta, só posso mencionar que a pessoa que me indicou fez muitos elogios ao livro. E que me fez ansiosamente querer ler o livro, que vai entrar pra minha imensa lista ;) Espero que você também gostem e comentem *-*

"Não fique alarmada, minha senhora, ao receber esta carta, pela apreensão de que ela contenha a repetição daqueles sentimentos ou a renovação daquelas propostas que ontem à noite tanto lhe repugnaram. Escrevo-lhe sem nenhuma intenção de aborrecê-la ou de me humilhar insistindo em exprimir esperanças que para a felicidade de ambos não podem ser esquecidas cedo demais. E o esforço da minha parte ao escrever esta carta e o seu em percorrê-la teria sido poupado se o meu caráter não exigisse que ela fosse escrita e lida. É preciso pois que me perdoe a liberdade com que exijo a sua atenção; sei que os seus sentimentos a concederão com relutância. Mas eu o exijo da sua justiça. 
 Duas foram as acusações que me fez ontem à noite, de natureza muito diferente e de importância igualmente desigual. A primeira foi: que eu tinha separado Mr. Bingley da sua irmã, indiferente aos sentimentos de ambos. E a outra de ter arruinado a possibilidade imediata e as probabilidades futuras de Mr. Wickham, ferindo vários direitos, desafiando a honra e a humanidade. Ter repudiado voluntária e gratuitamente o companheiro da minha infância, o favorito declarado de meu pai, um rapaz que dependia exclusivamente da nossa proteção e a quem esta fora prometida seria uma perversidade incomparavelmente mais grave do que a separação de duas pessoas cuja afeição, embora real, não poderia ter crescido excessivamente no espaço das poucas semanas que estiveram juntas. Espero estar a salvo, para o futuro, da severidade das censuras que me foram feitas com tanta veemência a respeito destes dois casos, depois de ter lido a seguinte explicação dos meus atos e dos seus motivos. Se durante esta explanação me encontrar na necessidade de exprimir sentimentos que possam ser ofensivos aos seus, posso dizer apenas que isto me entristece sinceramente. A necessidade de expô-los deve ser obedecida. E quaisquer outras desculpas serão supérfluas.
Pouco depois da minha chegada ao Hertfordshire, percebi, juntamente com outras pessoas, que Bingley preferia a sua irmã mais velha a qualquer outra moça da região. Mas foi só por ocasião do baile de Netherfield que fiquei pela primeira vez apreensivo de que ele se apaixonasse seriamente. Muitas vezes antes eu já o tinha visto apaixonado. Naquele baile, enquanto eu tinha a honra de dançar com a senhora, soube através da informação acidental de Sir William que as atenções de Bingley para com a sua irmã tinham dado lugar a um rumor geral acerca do seu casamento. Sir William falou naquilo como num acontecimento positivo, acerca do qual só a data era incerta. A partir desse momento observei a atitude do meu amigo com muita atenção. E vi que a inclinação por Miss Bennet era mais forte do que qualquer uma das que lhe tinha visto antes. Observei também a sua irmã; seu olhar, suas maneiras, eram francas, alegres e atraentes como sempre, mas sem qualquer sintoma especial de afeição. E a partir desta noite fiquei convencido de que, embora ela aceitasse as atenções de Bingley com prazer, não as provocava porque participasse do mesmo sentimento. Quanto a este ponto, se a senhora não se enganou, enganei-me eu. Como conhece melhor a sua irmã, a última hipótese parece ser mais provável. Se este é o caso, se este erro me levou a infligir um desgosto à sua irmã, o seu ressentimento é compreensível. Mas não tenho receio de afirmar que a serenidade do rosto da sua irmã e a tranqüilidade da sua expressão são tais, que o observador mais agudo concluiria que, por mais amável que seja o seu gênio, seu coração não é dos mais fáceis de atingir; é certo que eu desejava acreditar na indiferença dela, mas arrisco-me a afirmar que as minhas investigações e as minhas decisões não são geralmente influenciadas pelas minhas esperanças ou pelos meus receios. Não foi porque o desejasse que acreditei na indiferença da sua irmã, foi porque cheguei a esta convicção imparcial e ela é tão sincera quanto o meu desejo. Minhas objeções contra aquele casamento não foram apenas as que lhe descrevi ontem à noite e que no meu próprio caso exigiram toda a força da paixão para serem vencidas; a desigualdade social não seria um mal tão grande para o meu amigo quanto para mim. Mas existiam outras causas para a minha resistência; causas que, embora ainda existentes, e existentes do mesmo modo, eu tentara esquecer porque não as via de maneira imediata diante de mim. Essas causas precisam ser ditas, embora sumariamente. A situação da família da sua mãe, embora pouco recomendável, não era nada em comparação com aquela falta total de delicadeza tão freqüente e quase permanentemente demonstrada por sua mãe, por suas três irmãs mais moças e às vezes até por seu pai. Perdoe-me, dói-me ter de ofendê-la. Mas no meio dos aborrecimentos que os defeitos dos seus parentes mais próximos lhe causam e o desprazer que a presente descrição não pode deixar de lhe dar, a seguinte reflexão lhe sirva de consolo: saiba que o fato universalmente reconhecido de que tanto a senhora como a sua irmã mais velha sempre se comportaram de modo a evitar uma censura semelhante é o melhor elogio que se poderia fazer à sensatez e ao caráter de ambas. Acrescentarei apenas que os fatos que se passaram naquela noite confirmaram a minha opinião sobre todas as pessoas em questão e fortaleceram a minha resolução de proteger o meu amigo de uma aliança que eu considerava a mais desastrada. Ele deixou Netherfield no dia seguinte, como decerto está lembrada, com a intenção de regressar breve. 
Agora devo explicar a parte que tomei no caso. A inquietude da irmã de Bingley fora igualmente despertada e logo descobrimos que os nossos sentimentos, coincidiam a esse respeito; convencidos ambos de que devíamos agir rapidamente, resolvemos acompanhá-lo a Londres. Foi o que fizemos. E lá tomei a meu cargo a incumbência de revelar ao meu amigo as conseqüências desastrosas da escolha que fizera. No entanto, por mais que esta advertência possa ter-lhe abalado a resolução, não creio que teria sido suficiente para impedir o casamento, se não tivesse sido apoiada pela afirmação, que não hesitei em fazer, de que a sua irmã lhe era indiferente. Ele acreditava até aquele momento que Miss Jane correspondia à sua afeição sinceramente, se não com igual intensidade. Mas Bingley é por natureza muito modesto, e além disso tem mais confiança no meu julgamento do que no seu próprio. Convencê-lo, portanto, de que se tinha enganado não foi muito difícil. Persuadi-lo, em seguida, de que não devia voltar para o Hertfordshire, depois de firmado o primeiro ponto, foi coisa de um instante. Não me arrependo de tê-lo feito. Existe apenas uma parte da minha conduta que não me satisfaz. É que condescendi em usar de certos artifícios para esconder de Bingley o fato de sua irmã se encontrar em Londres. Sabia dessa presença, bem como Miss Bingley, mas o seu irmão até agora ainda não sabe. É possível que eles pudessem ter-se encontrado sem outras conseqüências; mas o seu afeto não me pareceu suficientemente extinto para que ele pudesse ver a sua irmã sem correr algum perigo. Talvez esse artifício seja indigno de mim. Mas o que está feito, está feito. E a minha intenção foi a melhor possível. Sobre este assunto nada mais tenho a dizer, nem outra explicação a dar. Se feri os sentimentos da sua irmã, foi sem a intenção de fazê-lo, e, embora os motivos que inspiraram a minha conduta lhe pareçam naturalmente insuficientes, não vejo ainda razões para condená-los.
Com relação à outra acusação, a mais grave, a que diz respeito a Mr. Wickham, só poderei refutá-la, expondo-lhe toda a história das suas relações com a minha família. Ignoro se ele formulou alguma acusação particular à minha pessoa; mas acerca da verdade do que vou relatar posso dar mais de uma testemunha insuspeita. Mr. Wickham é o filho de um homem muito respeitável, que durante muitos anos geriu todos os bens da propriedade de Pemberley; a fidelidade com que sempre se desincumbiu das suas funções mereceu naturalmente a gratidão do meu pai. E para com George Wickham, que era o seu afilhado, meu pai se mostrou sempre generoso, dedicando-lhe uma grande afeição. Pagou os seus estudos num colégio e mais tarde em Cambridge. Auxílio importante, pois o pai de Mr. Wickham, que as extravagâncias da esposa privavam quase sempre do necessário, não estava em condições de dar ao filho uma educação liberal. Meu pai não só gostava muito da companhia de George Wickham, cujas maneiras, aliás, eram sempre muito atraentes, mas tinha por ele a maior admiração e, alimentando a esperança de que o rapaz abraçasse a carreira eclesiástica, tencionava reservar-lhe um lugar na mesma. Quanto a mim, há já muitos anos que comecei a pensar de maneira diferente a respeito dele. As suas inclinações viciosas, a falta de escrúpulos, que ele tinha o cuidado de esconder do seu melhor amigo, não poderiam passar despercebidas a um rapaz da sua idade, que o observava e tinha a oportunidade de vê-lo em momentos de descuido, coisa que Mr. Darcy não tinha. Aqui novamente, terei de magoá-la. Até que ponto não sei. Só a senhora mesma poderá dizê-lo. Mas, quaisquer que sejam os sentimentos que Mr.Wickham lhe tenha inspirado, a suspeita que alimento acerca da natureza desses sentimentos não me impedirá de lhe revelar o verdadeiro caráter daquela pessoa.Acrescento mesmo um outro motivo.
Meu excelente pai morreu há cerca de cinco anos e a sua afeição por Mr. Wickham foi até o fim tão firme que me recomendou particularmente no testamento que me encarregasse de promover o seu adiantamento na carreira que tinha escolhido, e manifestou o desejo de que um posto importante, à disposição da família, lhe fosse dado, assim que vagasse, caso Mr. Wickham se ordenasse. Deixou-lhe também um legado de mil libras. O pai dele não sobreviveu muito tempo ao meu, e meio ano depois desses acontecimentos Mr. Wickham me escreveu, informando-me que resolvera não tomar ordens. Dizia-me também que esperava que eu não achasse despropositado o desejo de uma compensação pecuniária mais imediata, em lugar do posto do qual não poderia agora se beneficiar. Acrescentou que tinha intenção de estudar direito, e que eu devia compreender que os juros de mil libras não eram suficientes para o seu sustento e os seus estudos. Apesar do meu desejo de acreditar na sinceridade dele, não o conseguia. Mas de qualquer modo mostrei-me perfeitamente disposto a aceder à sua proposta. Eu sabia que Mr. Wickham não devia ser pastor. O negócio foi portanto logo arranjado. Ele desistiu de toda proteção relativa à sua entrada na Igreja, mesmo se estivesse algum dia em situação de recebê-la, e aceitou em troca a quantia de três mil libras. Todas as nossas relações a partir dessa época ficaram interrompidas. O que eu sabia a respeito dele era suficiente para não o desejar como amigo. E portanto eu não o convidava para vir a Pemberley, nem andava em companhia dele na cidade. Creio que durante esse tempo ele ficou em Londres, mas o seu estudo de direito foi um mero pretexto. Livre agora de toda obrigação, ele levava uma vida de dissipação. Durante três anos pouco ouvi falar nele. Mas, ao falecer a pessoa que ocupava o posto que outrora lhe fora destinado, ele tornou a escrever, solicitando a sua apresentação para o dito lugar. Sua atual situação, dizia ele, e eu não tive dificuldade em acreditá-lo, era extremamente precária. Descobrira que o estudo de direito era pouco proveitoso e estava agora absolutamente resolvido a tomar ordens, se eu o apresentasse para o posto em questão, coisa de que ele não duvidava, pois estava informado de que não havia outro pretendente e eu não poderia ter esquecido as intenções do meu venerando pai; creio que não há de me censurar por lhe ter recusado aquela pretensão e rejeitado todas as novas tentativas no mesmo sentido. O ressentimento que ele manifestou foi muito violento, dada a situação precária em que se encontrava. E, sem dúvida, os insultos de que me cobriu ao falar a meu respeito com outras pessoas foram tão violentos quanto as recriminações que me dirigiu. Depois desse período, todas as relações de mera formalidade foram cortadas. Como ele viveu, não sei. Mas no último verão tornou a aparecer no meu caminho da forma mais desagradável possível.
Devo agora mencionar certas circunstâncias que eu mesmo desejaria esquecer e que só uma obrigação tão forte quanto a atual me poderia induzir a relatar para qualquer outra pessoa. Depois de ter dito isto, confio inteiramente na sua discrição. Minha irmã, que é dez anos mais moça do que eu, foi deixada em tutela ao sobrinho de minha mãe, Coronel Fitzwilliam, e a mim próprio. Há um ano atrás saiu do colégio e foi morar em Londres em companhia de uma senhora encarregada de superintender a sua educação; e no verão passado foi com aquela senhora para Ramsgate. Mr. Wickham, sem dúvida propositadamente, partiu para o mesmo lugar; depois se descobriu que havia um entendimento prévio entre ele e Mrs. Younge, pessoa a respeito de cujo caráter infelizmente nos enganamos. Graças ao auxílio e conivência desta pessoa, ele se aproximou de Georgiana, em cujo coração por natureza afetivo ainda era muito vivida a impressão da bondade com que ele a tratara em criança. Ela se deixou persuadir de que estava apaixonada e consentiu em ser raptada. Como a moça tinha apenas quinze anos, essa loucura é até certo ponto escusável. Tenho o consolo de poder acrescentar que soube disto por ela própria. Cheguei a Ramsgate, inesperadamente, um ou dois dias antes da projetada fuga. E Georgiana, incapaz de suportar a idéia de desgostar e ofender um irmão que ela considerava quase como um pai, confessou-me tudo. A senhora pode bem imaginar como me senti e como agi. Para não prejudicar a reputação da minha irmã e não ofender os seus sentimentos, eu me abstive de qualquer ato de represália em público. Mas escrevi para Mr. Wickham, que partiu imediatamente. Mrs. Younge foi naturalmente despedida. Sem dúvida, o fito principal de Mr. Wickham era de se apoderar da fortuna da minha irmã, que é de trinta mil libras. Mas não posso deixar de pensar que o desejo de se vingar de mim tenha também influído fortemente nele.
Esta é uma narrativa fiel dos acontecimentos que nos concernem a ambos; e se não a rejeitar como absolutamente falsa, espero que me absolva daqui por diante da falta de ter agido com crueldade para com Mr. Wickham. Não sei de que maneira ele se impôs à sua atenção, nem as falsidades que usou para isto. Mas o êxito que alcançou não é de espantar, dada a sua ignorância de tudo o que acontecera antes. Não estava em seu poder desmascarar estas falsidades e o seu temperamento não é inclinado à desconfiança.
Talvez a senhora se surpreenda de eu não lhe ter dito isto ontem, mas naquele momento não tinha suficiente domínio sobre mim mesmo para decidir o que devia e o que não devia revelar. Quanto à verdade de tudo o que ficou aqui relatado, posso apelar particularmente para o testemunho do Coronel Fitzwilliam, que, dado o nosso parentesco e constante intimidade e sobretudo a sua qualidade de executor testamentário de meu pai, conhece necessariamente todos os detalhes desses acontecimentos. Se a antipatia que tem por mim privar de valor as minhas asserções, a mesma causa não a poderia impedir de confiar no meu primo, e para que haja a possibilidade de consultá-lo procurarei entregar-lhe a presente carta de manhã. Acrescentarei apenas: Deus a abençoe! Fitzwilliam Darcy"

3 comentários:

  1. Adorei essa "sessão" do seu blog, eu também adoro receber cartas, tem mais emoção né? Apesar de não receber nenhuma :/

    Beijos, http://bloghoradaleitura.blogspot.com/

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  2. Olá!

    Acho que, quando li Orgulho e Preconceito pela primeira vez, esta carta foi a parte mais esperada do livro! *-*' Mr. Darcy... Ai, ai. EXCELENTE ESCOLHA!!

    Abraços!

    Ana Carolina Nonato
    Seis Milênios

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  3. A idéia da sessão é muito legal! Parabéns :)
    Mr. Darcy é lindo demais!
    E "Orgulho e Preconceito" é um dos meus livros favoritos!
    Jane Austen é uma ótima escritora, maravilhosa!

    Bjos.

    Gilmara Almeida
    Verbologia Pink

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